terça-feira, 17 de agosto de 2021

 

CAUSA-ME ESPÉCIE E INDIGNAÇÃO

 

Causa-me espécie e indignação, ter estudado tanto a ciência jurídica e ver os meus pares praticando a antijuridicidade, a interpretação da conveniência, a aplicação de normas, segundo os interesses econômicos e financeiros de cada um; Ver mestres se degradando em atos escusos pelos honorários vis da indignidade, porque a ética não se aplica aos que se beneficiam da própria torpeza; Causa-me indignação ter estudado tanto a filosofia dos homens que buscam tantas explicações para as suas razões e entendimentos da sua própria essência e, não admitindo o seu estado de ignorância, cultua o não saber, perdendo-se nas elucubrações do nada, associados aos que pregam a existência do não ser e a subordinação mitológica do medo; Causa-me intolerância a farsa, a traição, a falta de patriotismo, o desapego aos princípios morais, a ausência de razoabilidade para a compreensão, a negação das leis universais e dos homens, por ser mais fácil a acomodação dos covardes e a usurpação da consciência pelos manipuladores de plantão; Afronta a minha inteligência a união dos meus semelhantes para vilipendiar a consciência dos lacaios e tacanhos, retrógrados e imbecilizados, estimulando-se a inércia do saber, porque mais prospera a sociedade repleta de marionetes e zumbis, anestesiados pela lavagem cerebral, globalizada, para atender aos interesses imperialistas dos que nos colonizam; Causa-me espécie e indignação, a instalação da iniqüidade, da exploração do ser pelo ser, enaltecendo a ordem dos incultos e a irresponsabilidade dos que se dizem justos; Causa-me indignação a apologia dos indignos que fingem não entender as suas próprias indignidades através das quais se locupletam e se degeneram. Envergonha-me a prosperidade da ilicitude e o silêncio conivente dos poderosos; Enoja-me ter que pisar na lama podre das ruas e avenidas das mentiras estruturadas; E, causa-me tristeza não ter forças suficientes para mudar tudo, mentes, conceitos, filosofia e a essência humana em benefício do próprio ser evoluído ou em evolução.

Causa-me espécie e indignação.

 

Em um dia qualquer do ano de 2016.


Republicado em 17/08/2021.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

 SANTA TEREZA - RIO DE JANEIRO - DE MUITA SAUDADE




 MINHA ULTIMA RESIDENCIA NO RIO DE JANEIRO - SANTA TEREZA - 1971




sexta-feira, 21 de maio de 2021

 HÁ TANTA GENTE QUE PASSA

 Há tanta gente que passa 

Na rua do mundo 

No tempo da vida

 No encontro da morte 

No encontro da dor 

Em busca da sorte

 Em busca de deus

 Em busca do amor

 Em busca da sorte.

 Há gente que passa

 Na rua do mundo 

No tempo da vida 

No asfalto do ontem

 No sol do amanhã 

Na sombra do ausente 

Na noite presente 

Na praia do nada 

No mar da esperança 

No barco que fica 

Na onda do povo 

Na chama do ódio 

Na festa da fome 

Na veste da crença 

No luto do ser 

Na orgia da besta 

Na casa do néscio 

No chão que apodrece

 Na lua que dorme. 

Há gente que passa

Na rua do mundo 

No tempo da vida 

Na porta que fecha 

Na bomba que explode 

Na mente que sobe 

No corpo que desce

 No leito do beijo 

Na carne que vibra 

No colo do vento 

No seio da sede

Na bunda de alguém

 Na luz da saudade

 No sonho menino 

Na voz da mulher

Na vez que não vem 

No espaço do não 

Na boca que xinga 

No micro e no macro 

No cosmos do logos 

No carnaval da ilusão

 No querer momentâneo

 Na lógica e no convencionalismo 

No espaço e no tempo da relatividade 

No livro que não leu 

No pouco que sou eu 

Na dúvida que tenho 

Na rua do mundo 

No tempo da vida 

Na vida do nada.


 Rio de Janeiro, 20/10/68.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Vídeo - Milton - música - DÓ RÉ MI




 

 

                  AVENIDA SENHOR DOS PASSOS

 




Avenida das minhas serenatas, das minhas noites sonhadas, sondadas e caminhadas; das moças bonitas que namorei e não namorei; dos bate-papos gostosos de Isabel, de Elia, Maritinha e Candinha; dos assustados cantados, dançados e tocados por muitas madrugadas.

 Avenida percorrida sem cansaço e sem mentira, glorificada pelos amores vividos e jamais esquecidos.

 Avenida do Ginásio Santanópolis de tanto brilhantismo, dos cinemas Iris e Timbira, dos filmes de cowboy, das matinês e soirées; das apresentações artísticas de Chico Viola, da Aquarela do Brasil de Ari Barroso, abrindo as cortinas do passado...

Do glorioso cinemascope ao decadente filme pornô.

 Avenida de Helena Assis, mestra de muitos ensinamentos; de Vavá e de Vevé, de Emilson e de Dedé, de Chico Pinto que recebia Getúlio Vargas; de Raimundo Pinto, de Luiz Silvany, da Casa OK de Álvaro Barbosa, da Escola São João Evangelista, da datilografia aprendida para a burocracia mercantilista de um comércio que se organizava; da Professora Catuca e Hermengarda, de Armando Oliveira e de Braginha, da Pensão que me abrigou, do Carnaval que passou, das procissões e romarias, de Maria Lúcia e de Lúcia Maria, do Ferro de Engomar.

 Avenida do Colégio das Freiras Sacramentinas, de Hermínio Santos, da Casa da Torre, de Luis Alvim e de Faninho, do andar rebolante de Creuza, musa das minhas primeiras poesias.

 Avenida Senhor dos Passos que trilhei em passos firmes a caminho da Usina de Algodão, para os babas das tardes de janeiro e das noitadas de serenatas ao som de violões e canções inesquecíveis, da Voz do Violão, da Malandrinha e do Luar do Sertão, de poesias derramadas em noites de estrelas, testemunhas silenciosas que não se apagam.

 Avenida do Bar da esquina, confluência com a Carlos Gomes, onde cantei minhas últimas canções com um amigo castelhano que nunca mais encontrei, porque viajei e se passaram vinte anos e depois, mais trinta e cinco, e o tempo não retroage para o encontro dos que se perderam pelos caminhos e descaminhos.

 Avenida dos meus amores, que se foram sem despedidas e sem retornos.

 Em tua linha reta, Avenida, resta a amplitude de um comércio, responsável pela migração residencial que abrigou homens e mulheres que se apaixonaram, que formaram famílias e que foram expulsas pelo burburinho dos carros, carroças e caminhões. Pelo solo ocupado, por barracas desordenadas e milhares de passantes no indo e vindo sem rumo certo, em busca da chita e do equipamento eletrônico importado, que aliena e massifica a turba ignara, que não versifica, que não rima, e não canta as nossas musas, porque vão perdidos, entre tantos desencontrados.

          Avenida de Becos transversais que abrigaram famílias e bordéis, oficinas e bares, abrigos da boemia.

 Avenida da travessa do ABC, do Beco do França, do Beco do Ginásio, do Pilão Sem Tampa, do Maternal Bebê Conforto, da saudosa Pró Izabel, que confortavelmente abrigou o meu bebê, que se fez adulta e que se fez mulher bela e competente para a lida e para a vida.

 Avenida que se perdeu no progresso dos homens e na decadência urbanística e humanística, que o presente esqueceu e o futuro consagrou como o último reduto de famílias que se foram, mas, vive nas páginas da nossa História.

 

Feira de Santana, 17 de agosto de 2018.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

CARTA AO AMIGO AMARAL (CLUDELSON PESSOA DO AMARAL)

 

Feira de Santana, Bahia, Junho de 2013.

 

 Caro amigo Amaral,

 

Deixei o Rio em abril de 1969, notando uma coincidência inexplicável, porque cheguei nesta antiga Capital da República, exatamente em abril de 1961, cheio de sonhos, que não foram realizados por inteiro, porque foram interrompidos, por motivos alheios à minha vontade.

Não pude me despedir do amigo, e por isto, através desta carta, tento relatar e reviver fatos, que precisam ser ditos e partilhados, até como um desabafo, como diz o poeta – “falar para não enfartar”.

Você, talvez, deve se lembrar, que deixei a vida artística em 68, em conseqüência de atos cometidos por membros da ditadura que se iniciou em 1º de abril de 1964, quando, dentre tantas barbaridades cometidas, fecharam a Rádio Nacional, a Mayrink Veiga e a TV Continental, onde se davam as minhas apresentações, com muita freqüência e ensejou a minha gravação na RCA VICTOR. Para completar, fecharam a Boate Michel e o Restaurante Le Rond Point, onde eu cumpria contrato, bem remunerado. Daí, final de 67 para 68, busquei novas atividades, após retomar os estudos e nos encontramos em busca de emprego, nos escritórios de venda de Seguro de Saúde, do Hospital Silvestre. Trabalhamos juntos e após várias incursões, tivemos a idéia de vendermos a idéia para implantação do Seguro de Saúde a se estender pelo Brasil, começando pelo Rio. Conseguimos iniciar o projeto. Você comprou um Retroprojetor da 3M, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, fizemos uma demonstração do projeto, no IBIC, em Botafogo, Hospital Cardiológico de um amigo judeu – Dr. Edidio, que nos deu crédito e abrigo, para depois Castelo Branco baixar um Decreto suspendendo a implantação do Seguro de Saúde no país, atendendo aos interesses da Blue Cross e aí, ficamos na rua.

Montamos um Curso de Taquigrafia e Madureza, na Rua do Catete, e lecionávamos Francês e Inglês, na Paróquia da Glória, que foi fechada, se não me engano, em 68, pelo DOPS, que levou todos para o Campo do Botafogo, alegando que ali abrigava um bando de comunistas. Escapamos nós, que estávamos no cursinho e depois disso nos desarticulamos.

Segui para concluir meus estudos em Filosofia e prestar vestibular para Direito. Estudei latim, grego, espanhol, italiano e aprimorei o francês. Para tanto, sai do Rio e fui para a Bahia. Em 70, retornei para o Rio. Marivone, com quem eu havia convivido, tinha morrido. Fui morar em Santa Tereza, após um casamento desastroso, que jamais deveria ter acontecido. Em 73, após vários empreendimentos frustrados na Cidade Maravilhosa, segui para Belo Horizonte, Minas Gerais. Aprovado duplamente em vestibular para Direito, cursei inicialmente na UCMG, depois FADOM, UCMG, UNB – Brasília, UCSAL, FESPI, e, em 1980 conclui, por coincidência em abril. Parece que tudo acontece em abril.

De retorno a Bahia, fui nomeado Procurador do Município de Feira de Santana, exercendo, também, a advocacia, com a qual sobrevivo até hoje.

Escritor, poeta, tenho vários livros publicados. A música, por ser um dom, do qual não pretendo me divorciar, amadoristicamente, todos os anos, gravo um CD.

Do amigo tenho boas lembranças, incluindo a minha admiração pela sua inteligência privilegiada.

Lembro das nossas idas para comer um bom pastel de queijo com caldo de cana, na Rua Senador Dantas e das nossas boas conversas.

Lembro também - das poesias que eu escrevia, rodava no mimeógrafo da Paróquia e distribuía no Largo do Machado. Você lembra?!

Aproveito para manda-lhe um abraço, desejando-lhe muita paz e felicidade.

 Att.

 Milton Britto

 PS.: Esta carta faz parte das páginas do meu Livro “CARTAS NÃO REMETIDAS”.