quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
AVENIDA SENHOR DOS PASSOS
Avenida das minhas
serenatas, das minhas noites sonhadas, sondadas e caminhadas; das moças bonitas
que namorei e não namorei; dos bate-papos gostosos de Isabel, de Elia,
Maritinha e Candinha; dos assustados cantados, dançados e tocados por muitas
madrugadas.
Do glorioso cinemascope ao decadente filme
pornô.
Feira de Santana, 17 de agosto de 2018.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
CARTA AO AMIGO AMARAL (CLUDELSON PESSOA DO AMARAL)
Feira
de Santana, Bahia, Junho de 2013.
Deixei o Rio em abril de 1969, notando
uma coincidência inexplicável, porque cheguei nesta antiga Capital da
República, exatamente em abril de 1961, cheio de sonhos, que não foram
realizados por inteiro, porque foram interrompidos, por motivos alheios à minha
vontade.
Não pude me despedir do amigo, e por
isto, através desta carta, tento relatar e reviver fatos, que precisam ser ditos e partilhados, até como um
desabafo, como diz o poeta – “falar para não enfartar”.
Você, talvez, deve se lembrar, que
deixei a vida artística em 68, em conseqüência de atos cometidos por membros da
ditadura que se iniciou em 1º de abril de 1964, quando, dentre tantas
barbaridades cometidas, fecharam a Rádio Nacional, a Mayrink Veiga e a TV
Continental, onde se davam as minhas apresentações, com muita freqüência e
ensejou a minha gravação na RCA VICTOR. Para completar, fecharam a Boate Michel
e o Restaurante Le Rond Point, onde eu cumpria contrato, bem remunerado. Daí,
final de 67 para 68, busquei novas atividades, após retomar os estudos e nos
encontramos em busca de emprego, nos escritórios de venda de Seguro de Saúde,
do Hospital Silvestre. Trabalhamos juntos e após várias incursões, tivemos a
idéia de vendermos a idéia para implantação do Seguro de Saúde a se estender
pelo Brasil, começando pelo Rio. Conseguimos iniciar o projeto. Você comprou um
Retroprojetor da 3M, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, fizemos uma
demonstração do projeto, no IBIC, em Botafogo, Hospital Cardiológico de um
amigo judeu – Dr. Edidio, que nos deu crédito e abrigo, para depois Castelo
Branco baixar um Decreto suspendendo a implantação do Seguro de Saúde no país,
atendendo aos interesses da Blue Cross e aí, ficamos na rua.
Montamos um Curso de Taquigrafia e
Madureza, na Rua do Catete, e lecionávamos Francês e Inglês, na Paróquia da
Glória, que foi fechada, se não me engano, em 68, pelo DOPS, que levou todos
para o Campo do Botafogo, alegando que ali abrigava um bando de comunistas.
Escapamos nós, que estávamos no cursinho e depois disso nos desarticulamos.
Segui para concluir meus estudos em
Filosofia e prestar vestibular para Direito. Estudei latim, grego, espanhol,
italiano e aprimorei o francês. Para tanto, sai do Rio e fui para a Bahia. Em
70, retornei para o Rio. Marivone, com quem eu havia convivido, tinha morrido.
Fui morar em Santa Tereza, após um casamento desastroso, que jamais deveria ter
acontecido. Em 73, após vários empreendimentos frustrados na Cidade
Maravilhosa, segui para Belo Horizonte, Minas Gerais. Aprovado duplamente em
vestibular para Direito, cursei inicialmente na UCMG, depois FADOM, UCMG, UNB –
Brasília, UCSAL, FESPI, e, em 1980 conclui, por coincidência em abril. Parece
que tudo acontece em abril.
De retorno a Bahia, fui nomeado
Procurador do Município de Feira de Santana, exercendo, também, a advocacia,
com a qual sobrevivo até hoje.
Escritor, poeta, tenho vários livros
publicados. A música, por ser um dom, do qual não pretendo me divorciar,
amadoristicamente, todos os anos, gravo um CD.
Do amigo tenho boas lembranças,
incluindo a minha admiração pela sua inteligência privilegiada.
Lembro das nossas idas para comer um
bom pastel de queijo com caldo de cana, na Rua Senador Dantas e das nossas boas
conversas.
Lembro também - das poesias que eu escrevia, rodava no mimeógrafo da Paróquia e distribuía no Largo do Machado. Você lembra?!
Aproveito para manda-lhe um abraço, desejando-lhe muita paz e felicidade.
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
A FEIRA QUE EU VIVI
1945! Um ano
atípico. Final da 2ª Guerra Mundial. A Alemanha, a grande potência bélica do
mundo, finalmente sucumbira diante da união de tantas Nações que se propunham
um mundo livre, sem a ditadura do Nazismo.
Eu morava em um casarão com primeiro andar, localizado na
Rua Direita, na Cidade de Feira de Santana, Bahia, cujo imóvel tinha uma
dimensão territorial, que ia até a Rua de Aurora. Um quintal todo arborizado,
e, ainda me lembro, na porta dos fundos pude avistar um Zepelim, (um dirigível
de fabricação Alemã) que nunca obtive resposta para a presença daquela
espaçonave, naquele momento, naquele lugar.
A Rua Direita era uma via pública pacata, praticamente
sem veículos automotores.
Moravam naquela artéria, famílias tradicionais, como os
Cordeiros, Carneiros, Carvalhos, Martins, prósperos comerciantes e fazendeiros.
Todos se conheciam e tinham algum vínculo de amizade.
Eu tinha apenas cinco anos de idade, pai, mãe e dois
irmãos.
Lembro que ao final da guerra, ainda desfilavam soldados,
do exército pela Rua Direita, em direção a Praça da Matriz, onde ficavam seus
alojamentos (local hoje ocupado pelo chamado “Feiraguai”).
Ainda em 1945, minha mãe faleceu de “Doença de Chagas”.
Em menos de seis meses, meu pai contraiu novas núpcias e nos
mudamos para a Rua Santos D’umont, próximo da Rua São José.
Nas proximidades,
havia o Campo do Gado, Matadouro, Feira de gado e outros animais, um comércio
próspero.
A Praça Froes da Mota era um lugar aprazível, com Coreto,
onde desfilavam Filarmônicas e Retretas, existindo a Mansão Froes da Mota,
havendo no entorno residências de médicos, dentistas, fazendeiros, políticos,
Pensões, Emissora de Rádio ( Rádio Sociedade de Feira) de Propriedade de Pedro
Matos.
Ali vivi, até os 12 anos de idade, cercado de amigos e
parentes, como se fosse uma verdadeira irmandade. Lembro de Juarez,
Eurico,Edgard, Val, Adilson, Zé Pão, Toninho, todos com a minha faixa etária,
de muitos encontros e brinacadeiras.
Guardo na
lembrança os tempos de estudo na Escola Anexa, que ficava no fundo da Escola
Normal (atual CUCA), onde fiquei até 1952 quando fui estudar em Salvador, no
Colégio Ipiranga, (antiga residência de Castro Alves).
Tive uma infância e uma adolescência, relativamente,
normal, jogando futebol, empinando arraia, jogando bola de gude, tomando banho
nos riachos e represas, indo ao Rio de Jacuipe.
Predominava a religião católica e por isso freqüentávamos
missas, novenas, batizados, crismas, casamentos, festas religiosas, quermesses,
filarmônicas e retretas nos Coretos da Praça da Matriz, por onde passaram as
nossas meninices, confetes, serpentinas, amizades e amores.
Como diz o poeta – “Eu era feliz e não sabia”.
Feira de Santana, 09/11/2020.
domingo, 4 de outubro de 2020
MARGOT
Nascida no Bairro de Cascadura,
subúrbio da Central do Brasil, Zona Norte, da cidade do Rio de Janeiro, cresceu
e viveu até os l7 anos, no ambiente familiar, com princípios morais rígidos,
freqüentando a escola pública, por pertencer a uma família de classe média
baixa, sob a influência da religião católica, indo às missas aos domingos, onde
foi batizada e crismada.
Concluindo o segundo grau do ensino
fundamental (à época – curso primário, ginasial e científico), aos 18 anos Margot
iniciou nos finais de semana, a freqüência nas praias de Copacabana, em
companhia de algumas amigas.
Década de 40/50 (1940/1950),
Copacabana era a Princesinha do Mar, cantada em verso e prosa, por Antonio
Maria, Braguinha, Luis Bonfá, deslumbre das vedetes e da vida artística da Zona
Sul da Cidade do Rio de Janeiro.
Todos sonhavam em conhecer e vivenciar
Copacabana, com suas Boates, Bares, Restaurantes, Teatros, Casas de Show de
todo tipo, incluindo Cassinos, sendo os mais famosos o Cassino da Urca e o de
Copacabana.
Nos primeiros fins de semana, Margot
já se enturmou com alguns moradores do bairro boêmio, iniciando encontros
amorosos.
De repente, nada mais que de repente,
Margot se fez mulher, linda, em todos os sentidos, com um corpo escultural,
pele macia, levemente bronzeada, cabelos levemente aloirados, olhos azuis,
dentes brancos e bem tratados, passando a ser vista como possível modelo para
os desfiles carnavalescos em carros alegóricos e na passarela do Teatro
Municipal, do Hotel Glória, Clube Sírio Libanês, Hotel Quitandinha, não faltando
quem a incentivasse, logo surgindo interessados e patrocinadores.
Com 18 anos, (1940), após freqüentar a
Zona Sul, comunicou aos familiares a sua decisão definitiva, de ir morar em
Copacabana, argumentando que para tanto havia conseguido um emprego como modelo
em loja de confecção de “alta costura”.
Mesmo contrariados, os pais
perceberam que não conseguiriam demovê-la da decisão, desejando-lhe felicidade
no seu intento.
Alguns amigos conseguiram-lhe uma
escola de modelos, a exemplo da famosa “Socila” onde aprendeu a desfilar.
Chegando o período carnavalesco,
Margot, já bem entrosada, consegue um patrocínio para o primeiro desfile no
Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Vestiram-na de Rainha, com vestes
deslumbrantes, conseguindo-lhe o segundo lugar na premiação, sendo manchete em
jornais e revistas, emissoras de Rádio, destacando-se na capa do principal semanário
- Revista dos Artistas.
Admirada por muitos, desejada e
cortejada, logo apareceram os barões endinheirados, empresários, deputados,
senadores, ministros, jornalistas, artistas, propondo-lhes encontros,
compromissos escusos, concubinatos, oferecendo-lhe jóias, carros, apartamentos,
mas, a esta altura dos acontecimentos, Margot sabia o que queria e isto
implicava em uma boa casa confortável, sem compromisso firme e exclusivo.
Com um Senador da República conseguiu
uma bela Mansão na Avenida Atlântica, principal artéria pública de Copacabana,
de frente para o mar.
De caso amoroso com o idoso
parlamentar, passou a gozar de uma situação financeira confortável, seguindo a
sua carreira de modelo, freqüentando as casas noturnas, ora com o Senador, ora
com outros admiradores, em segredo, para não contrariar aquele que era o
principal patrocinador.
Despertada para o sexo, tornou-se uma
mulher fogosa, cheia de desejos, cujas satisfações seriam saciadas por jovens
rapazes bonitos e saudáveis.
Passaram-se vinte anos. Noites
perdidas, cigarro, bebida alcoólica e outras drogas consumidas, foram tirando a
beleza de Margot.
O tempo não pára, é cruel e o físico
humano decai, a beleza se esvai, se dilui, os patrocinadores do belo
desaparecem e a sobrevivência no padrão de alto luxo é difícil.
As beldades vão se sucedendo, surgem
novos padrões de beleza, a situação financeira é instável, a política muda, o
Senador não se reelege, o Ministro se aposenta, a velhice acomoda, invalida a
atividade sexual, a ciranda do poder é inevitável, é fugaz e vulgar, o tempo
não perdoa.
A vida é como o elevador – sobe e
desce e nem sempre os passageiros são os mesmos.
Os múltiplos desfiles premiados de
Margot deram-lhe fama, amantes, dinheiro, conforto, viagens, jóias, carros,
tudo que jamais tenha imaginado uma garota de subúrbio da Capital do País,
denominada – Cidade Maravilhosa, também conhecida como berço de sonhos e
desilusões, na versão do poeta.
Os recursos financeiros de Margot iam
se consumindo a partir do momento em que se via sem o patrocínio do Senador (já
aposentado e sem a libido), sem os mesmos atrativos de ontem, a outrora
suburbana, entra em decadência e começa a dilui o que ganhou, tendo que
sustentar cafetãs, tendo que vender a Mansão, o carro, as jóias e até as suas
fantasias.
Década de 60, de Bar em Bar, faz sua
ronda noturna aquela que foi uma das mais lindas vedetes de Copacabana, uma das
certinhas do Lalau (Stanislau Ponte Preta), que desfilou nas passarelas, do
Teatro Municipal, Hotel Quitandinha, Hotel Glória, bebendo agora o Vermute, o
Martine, e o raro uísque que lhe paga algum amigo do passado, até retornar ao
seu kitinet no Edifício Ritz, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, reduto
dos que sonharam e adormeceram em suas próprias frustrações, nos versos de
Haroldo Barbosa, na voz de Nora Ney:
Bar da
Noite
Garçom apague esta luz
Que eu quero ficar sozinha
Garçom me deixe comigo
Que a mágoa que eu tenho é
minha
Quantos estão pelas mesas
Bebendo tristezas
Querendo ocultar
O que se afoga no copo
Renasce na alma
Desponta no olhar
Garçom, se o telefone
bater
E se for pra mim
Garçom repita pra ele
Que eu sou mais feliz
assim
Você sabe bem que é
mentira
Mentira noturna de bar
Bar, tristonho sindicato
De sócios da mesma dor
Bar que é o refúgio barato
Dos fracassados do amor
Em 1990, com 68 anos de idade, sob a
proteção de um admirador (amante de outrora), consegue a nossa vedete,
abrigar-se na Casa dos Artistas, no distante bairro de Jacarepaguá, onde se
encontram estrelas e astros que brilharam no universo de sonhos e fantasias.
Feira de Santana, 04/10/2020








