quinta-feira, 13 de setembro de 2018
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
FALANDO DE SÓCRATES E RUI BARBOSA
TRECHO DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Sócrates, certo dia, numa das suas conversações que o Primeiro
Alcibíades54 nos deixa escutar ainda hoje, dava grande lição de mo−
déstia ao interlocutor, dizendo−lhe, com a costumada lhaneza: “A
pior espécie de ignorância é cuidar uma pessoa saber o que não sabe...
Tal, meu caro Alcibíades, o teu caso. Entraste pela política, antes de
a teres estudado. E não és tu só o que te vejas nessa condição: é esta
mesma a da mor parte dos que se metem nos negócios da república.
Apenas excetuo exíguo número, e pode ser que, unicamente, a
Péricles, teu tutor; porque tem cursado os filósofos.”
Vede agora os que intentais exercitar−vos na ciência das leis, e vir
a ser seus intérpretes, se de tal jeito é que conceberíeis sabê−las, e
executá−las. Desse jeito; isto é: como as entendiam os políticos da
Grécia, pintada pelo mestre de Platão.
Uma vez, que Alcibíades discutia com Péricles, em palestra regis−
trada por Xenofonte, acertou55 de se debater o que seja lei, e quando
exista, ou não exista.
“– Que vem a ser lei?”, indaga Alcibíades.
“– A expressão da vontade do povo”, responde Péricles.
“– Mas que é o que determina esse povo? O bem ou o mal?”
replica−lhe o sobrinho.
54 Nome de um diálogo de Platão, por intermédio de quem, sobretudo, nos fo−
ram transmitidos os ensinamentos de Sócrates.
55 acertou: aconteceu.
35
“– Certo que o bem, mancebo.”
“– Mas, sendo uma oligarquia quem mande, isto é, um dimi−
nuto número de homens, serão, ainda assim, respeitáveis as leis?”
“– Sem dúvida.”
“– Mas, se a disposição vier de um tirano? Se ocorrer violên−
cia, ou ilegalidade? Se o poderoso coagir o fraco? Cumprirá, toda−
via, obedecer?”
Péricles hesita; mas acaba admitindo:
“– Creio que sim.”
“– Mas então”, insiste Alcibíades, “o tirano, que constrange
os cidadãos a lhe acatarem os caprichos, não será, esse sim, o inimi−
go das leis?”
“– Sim; vejo agora que errei em chamar leis às ordens de um
tirano, costumado a mandar, sem persuadir.”
“– Mas, quando um diminuto número de cidadãos impõe seus
arbítrios à multidão, daremos, ou não, a isso o nome de violência?”
“– Parece−me a mim”, concede Péricles, cada vez mais vaci−
lante, “que, em caso tal, é de violência que se trata, não de lei.”
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
IDEALISMO
IDEALISMO
Quisera eu
Que tudo brotasse
Na terra que outrora
Não foi de ninguém.
Quisera
Que a fonte
Do pranto
Secasse
A mágoa
Acabasse
E existisse
Só bem.
Quisera
Que a vida
Não fosse
Perdida
Com tanta fadiga
Sem nada
Render.
Quisera
Que os homens
De idéias
Formadas
Pr'os campos
Dos livros
Chegassem
A viver.
Quisera
A irmandade
De todos
Os povos
E os fogos
Da guerra
Não mais
Acendessem.
Quisera
A verdade
Na causa
Que fosse,
No campo
Que fosse,
Os direitos
Vencessem.
Quisera
A maldade
No canto
Dantesco,
No inferno
Grotesco,
Na chama
Da morte.
Quisera
O triunfo
De todas
As causas,
As causas
Formadas
Dos seres
Mais cultos.
Quisera
O extermínio
De todos
Sofismas
Morressem
As cismas,
A fome
E seus vultos.
Quisera
Os sibários*
Já fora
Do mundo
E fosse
Infundo
Que o ouro convém.
Quisera
Ver findo
O povo
Que rindo
Acaba
Com o povo
Pra mais
Viver bem.
Quisera
Quem dera
O opróbrio
E a guerra
Na lama
Escondidos
Na chama
Quem dera.
(
* O mesmo que sibaríticos).
Rio de Janeiro, 1965.
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