segunda-feira, 9 de outubro de 2017

POEMA Nº 4 - LIVRO "O EU SOFRIDO"

Deixe-me pensar,
Vagar ou divagar
Sem nenhuma afirmação
Ou negação, absolutas;
Viver o circunstancial
À tua presença,
Em convivência sem conveniência
Outra, senão a de nós dois.
Deixe-me fugir ao pré-determinado,
Saber que não afirmo
E não defino.
Que não busco a explicação
Mais ou menos lógica.
Que não quero e não pretendo
O certo ou o incerto;;;
Que busco apenas
"A lógica do nada".

Deixe-me pensar,
Vagar ou divagar
Sem nenhuma conclusão;
Sem temor e sem tremor;
Sem razão ou com razão;
Sem ódio e sem amor;
Na pretensão apenas
Da "lógica do nada".

A metafísica, a praxi,
O empíreo pensamento humano,
A verdade e a mentira,
A glória e o obscurantismo,
A física,
A dor,
A voz,
O sentimento,
A valsa,
O verbo,
O nominalismo...
Uma série de conceitos
Formulados e determinados.
Explicações perenes, pretendidas,
Mentalidades confusas e finitas.

Invejo a fé e a pretensão
Dos absurdos,
E tantos creem...
E versificam
E supõem...
E tanto se pretende,
Enfim, na humanidade...
E tanto se propõe
Humanamente,
Para a dízima - eterna -periódica,
Do problema:

 "A lógica do nada".

05/06 à 08/06/68.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

PUBLICAÇÃO DOS MEUS LIVROS E CDs


Poeta desde o ano de 1952. Sai da gaveta para a edição de livro em 1989, embora tenha publicado diversos Poemas em Jornais e Revistas, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e na União Soviética, além de vasta distribuição de Poesias no Largo do Machado, quando lecionava na Paróquia da Glória, como ato revolucionário contra a ditadura militar de 64.
Abaixo, uma das Poesias:

Eis-me aqui, oh Deus!
Inerte, sem a movimentação
Comum dos homens;
Sem um pensamento nobre,
Para consolar os duvidosos
E os sofridos como eu.
Sem uma palavra de fé
Que possa ratificar
A crença dos idólatras.
Sem um olhar, porque não percebo...
Sem amor, porque não o sinto.
Sem concepção alguma
Porque não me foi dado
O direito de pensar
Ou assimilar ainda, coisa alguma.
Eis-me aqui, Senhor,
Em minha inocência
Ainda mal nascida.
Eis-me aqui, privado
Até mesmo das obrigações
Mais Fúteis.
Calado, como por castigo,
Como se tivesse sido eu
O delator de Cristo.
Como se tivesse sido eu
O lançador da bomba de Hiroxima.
Como se fosse eu
A consciência do covarde.
Por que tenho eu que suportar, estático,
Em silêncio, sem voz para a defesa
Dos erros que não cometi?
Por que tenho eu que concordar
Com a morte de minha inteligência
Por nascer, embora cresça e desenvolva
A minha forma física de nada?
E tenho que vos crer, crença do mundo,
Antítese de todas as catátrofes
De que a humanidade gera sem limite
E sem Senhor.
E tenho que sonhar em cada alma,
A vossa imagem pura,
Porque assim determina o velho e o novo
Testamento dos homens.
E TENHO QUE VOS CRER?

1972.
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Poesia em homenagem a minha filha Simone que nasceu e viveu por 13 anos com vida vegetativa. Um grito de dor.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

RIO DE JANEIRO ABRIL DE 2017

Uma visita para reviver sonhos vividos e idos. Depois das estátuas de Noel em Vila Isabel, Caymmi em Copacabana, Tom Jobim em Ipanema, passeios por Santa Tereza como meu último pouso na Cidade Maravilhosa. Visitar Rio de Janeiro é sonhar acordado.Bar da Lapa, Alto da Boa Vista, Otto Lara Resende,Carlos Drumod de Andrade e a minha última residência em Santa Tereza. Aí estão - minha esposa querida - Eva e minha filha Yolanda com meu genro Leo, queridos e amados. Pra não esquecer.






RIO DE JANEIRO 2017 - UMA SAUDADE





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

TANQUE VELHO



Tanque Velho da minha mocidade, dos meus brinquedos de criança, das minhas travessias aprendendo a nadar; dos peixes pescados para o almoço, secados ao sol, dependurados nas cordas, entremeados com as carnes bovinas que após secarem seriam armazenadas em barris de farinha de mandioca, para o feijão cozido de amanhã, degustado ao pé do fogão de lenha, sentado no cepo ao lado de minha avozinha que viveu 104 anos praticando o bem e abrigando os desvalidos, distribuindo terras com os trabalhadores com o pioneirismo de quem faz a reforma agrária que os governos negam, procrastinam e enganam. Tanque de águas profundas ladeando a Fazenda do mesmo nome, no agreste do Quaresma por onde aflora o mandacaru, a escassa mandioca e o raro feijão, embora próspero para o fumo do charuto, do cigarro de palha e do cachimbo. Por ai andei de “badogue” em punho na caça dos passarinhos que a infância não distingue, por desconhecer o compromisso com a fauna. Tanque Velho de Guilherme e Ildefonsa, primos que se casaram para a formação de uma família que se respeita de onde saíram Manoel e Dande, prósperos e simples cidadãos honestos, prenhe de conhecimento, autodidatas que o tempo levou sem piedade antes da hora. Poderia ter sido o bebedouro particular do minifúndio, mas não foi, porque se permitiu a todos a divisão de suas águas para matar a sede dos animais da redondeza, numa repartição pregada por aquele que o homem mau em sua ambição e inveja crucificou. Ainda me lembro do “FIFÓ” e do candeeiro, reclamados por Badinho que não dormia se não estivessem acesos. Lembro-me do cerco de quarana, único lugar para as necessidades fisiológicas, cujas folhas substituíam o “Tico-Tico” e o suave “Neve”. Lembro-me da folha de juá que meu avô usava para escovar os dentes brancos que nunca foram examinados por dentistas, pela forma sadia que se encontravam.
Por ali passaram “Mitoi” o comilão, “Agrário” o peão das cantigas e da peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho, que sabia de co. Tanque Velho sempre novo para as novas gerações, que não secou como não secam os olhos meus pelas lembranças de um tempo quando o homem ainda era puro e os casais se amavam, homem e mulher, porque se fez o mundo para a perpetuação da espécie. Do corredor com destino ao “Calço” e à casa de “Martide”, da casa de farinha e do beiju quentinho da mandioca ralada pelo cilindro circulando pela força do braço do homem impulsionando a Roldana; do bolo de puba da casa de Silvia casada com o vaqueiro Roque que meu avô abrigou, dando-lhes casa e terras para os seus sustentos. Tanque que se fez tanque pela mão do homem e que lhe retribuiu com a água para se lavar e para se beber. Por ali pousavam os marrecos e os “Espantas Boiadas”, depois de revoadas e cantos de acordar e fazer alegre o povo humilde. Se não fosses tu, com tuas águas calmas, eu não teria aprendido a nadar, inicialmente o nado de boi e depois o de braçada, que me deu condição para alcançar o mar. No cavalo em pelo, sem sela, apostei corridas, ganhando e perdendo algumas, que não tinha importância, porque o que valia era o prazer de sentir na velocidade o vento passando no meu rosto de menino levado pelo prazer de viver a vida sem as complicações da cidade grande, das ambições desmedidas e das disputas desleais a que o adulto se sujeita. Eu era feliz, chupando o azedo umbu, a jabuticaba e a cajá que colhia nas terras não muito férteis, mas satisfatórias da ultima gleba plantada no sertão dos meus antepassados, que não souberam administrar as sesmarias que o império os legou.
  
Feira de Santana,


Em um dia de saudade, do ano de 2011.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

POEMAS DE J G DE ARAUJO JORGE

Talvez seja o tempo...a vida...a idade...
mas a gente vai aprendendo a renunciar
a tanto que se quis...

A verdade
é que me acomodei de tal modo na minha infelicidade,
que quase que sou feliz...
J. G. de Araújo Jorge


Aí está um dos maiores poetas e sonetístas da língua portuguesa, que conheci. Professor do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.

POEMAS DE VICENTE DE CARVALHO

A Flor e a Fonte

Vicente de Carvalho



"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
"Deixa-me, deixa-me, fonte!
" Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar".
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.
"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!...
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria
Rolava levando a flor.
"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr do sol;
"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!...
" As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...
vivente de carvalho