terça-feira, 22 de novembro de 2022

 DA NOBREZA DE SER


 "Coração é uma riqueza que não se vende nem se compra. Presenteia-se".

( Gustave Flaubert) 


O contato humano, ameno,

 É como a rosa que ornamenta, perfuma e contagia, 

Impregnando-nos com sua essência vital e necessária, 

Envolvendo-nos em sua beleza, 

Tornando-nos dóceis 

E prontos para o amor e para a vida. 

É como se a inteligência se aclimatasse

 A outra inteligência 

Por identidade ontológica,

 Por razão que transcende 

O plano consciente, 

Que não chega ao entendimento dos medíocres 

E mal amados. 

O relacionamento humano 

Quando advindo de um prisma magnânimo, 

Acrisola o Ser,

Projeta-nos num campo emocional 

Estável, de bem-aventurança 

E criatividade, 

Que chega a confundir-se com o místico. 

Diviniza-nos 

E nos conforta 

Para a vida e para a morte. 


Brasília, 26.08.1978.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

     MARIA

 

 Minh’alma é rosa que geada esfria...

Dá-lhe em teus seios um asilo brando...

Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!...

 

(Castro Alves)

 

Maria

frô brejêra

frô sôdade

frô Maria.

  

Maria

se eu te pego

eu me dano todo...

eu nem sei Maria 

que diabo é que eu fazia!?


 Eu te beijava!

eu te abraçava!

eu te mordia!...

eu te cheirava!

eu te amassava!

eu te sentia!...

 

No fim, eu te tomava,

eu te bebia,

pra que tu fosse minha ...

ó frô das frores bela ...

a frô que é tu Maria.

 

                                         Rio de Janeiro.  11.11.64

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

 VERSEJANDO 

Vou caminhar 

Por onde voam os pássaros

E passear em seus gorjeios matutinos 

Em cânticos maviosos, 

Nas arvores frondosas 

Onde outrora cantavam 

As cigarras noturnas 

De Olegário Mariano. 

Vou alcançar as estrelas 

Que diziam versos 

Para Olavo Bilac 

Em sua imaginação gloriosa,

 Enquanto amava a mais linda das mulheres. 

Vou refugiar -me 

Nas palmeiras 

Compridas, 

No pouso das sabias

 De Gonçalves Dias, 

Porque “as aves que aqui gorjeiam, 

Não gorjeiam como lá”. 

Vou esquecer da dor do mundo 

E da simbiose , 

Da hemoptise 

Sofrida dia a dia 

Por Augusto dos Anjos 

E voar como o condor 

Que adeja o espaço infinito, 

Que não conhece o limite 

Contido na imaginação 

De Victor Hugo 

Ou no condoreirismo 

De Castro Alves. 

Vou quedar -me silente, 

Inerte e inerme, 

Na poltrona de Schopenhauer 

Para não dizer mais nada.


 07.12.2010.


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

 

ANDANÇAS DA JUVENTUDE

                           

Aos dezessete anos

Eu amava Joanita

E fazia sexo com Nazinha.

 

Aos dezoito anos

Eu amava Lúcia

E tinha saudades de Nilza

Minha primeira namorada

Que antecedeu aquela morena linda

Da Avenida Senhor dos Passos

Cujo nome não guardo na memória.

 

Aos dezenove anos

Eu amava Zulenice

A programista.

 

Aos vinte anos

Eu me apaixonava por Lúcia

Deslumbre e ansiedade da minha juventude.

 

Ainda aos vinte anos eu amava Linda

A musa inspiradora, a pura,

A que fez vibrar a minha veia poética,

Musa das minhas serenatas.

 

Aos vinte e um anos

Eu vivi Ana Maria

A meiga, a loira,

E sonhei abraçado

Ao corpo belo e moreno

De Isabel.

 

Ainda aos vinte e um anos

Eu era amante e amava

Em todos os bordéis

Onde tinha chinelo,

Escova e pasta de dente.

 

Aos vinte e dois anos

Eu era o deleite de cem mulheres

E em pleno vigor,

Amava no leito de forma insaciável

A mais linda das mulheres.

 

 

Aos vinte e três anos

Eu amei loucuras

 

E aos vinte e quatro anos

Eu me entreguei aos estudos

Buscando desesperadamente o tempo perdido.

        Feira de Santana, em um dia qualquer do ano de 2008.

quinta-feira, 17 de março de 2022

 

PRAÇA DO NORDESTINO

 

 (Da série Filhos da Princesa).

 

  Dos filhos da Princesa que habitavam a Praça do Nordestino, como era conhecida, ainda me lembro, - Sevilho Carneiro o fazendeiro honrado com imensas terras no distrito de Jaguará; o Promotor de Justiça descendente de Castro Alves - o poeta dos escravos de versos líricos e libertários que pregava – “Oh! Bendito o que semeia Livros... livros a mão cheia e manda o povo pensar, o livro caindo n´alma é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar”. O que dizia “Sou pequeno, mas só fito os Andes”. Lembro da família Cunha de D. Tereza de brilhantes festas em sua residência reunindo amigos para comemorar aniversários inesquecíveis, de prole digna; de Dona Petu com sua altivez, de ar tranqüilo como a rocha que não se abala com as intempéries, e de seus netos que se fizeram doutores e professores honrando a Princesa; da moça linda da esquina com a Rua Carlos Gomes, que passava fagueira pisando macio, de corpo leve e escultural, que como uma garça sombria trazia inveja no seu caminhar; do moço que por algum tempo roubou minha namorada da Usina de Algodão; de Teodorico próspero comerciante; da Pensão Brasil de Mané Quaresma que mesmo com muitas andanças pôde educar seus filhos; Barreto o bancário e sua glamorosa esposa das colunas sociais de Eme Portugal, com o bom vizinho Chico Maia de saudosa lembrança. Ali naquele logradouro público, imponente, ficava o Abrigo Nordestino do encontro de boêmios vindos de suas serenatas, onde se tomava o bom conhaque de Alcatrão São João da Barra para “cortar a gripe” colocando-o no pires com um pouco de açúcar, riscando o fósforo e tocando fogo, após, abafando, era servido em taça ainda quente, antes do sono do guerreiro. Muitas foram as noites que pela madrugada de violão em punho, vindos das serestas, cantávamos o vasto repertório de Francisco Alves, o Chico Viola, Rei da Voz – “A lua vem surgindo cor de prata, do alto da montanha verdejante, na lira do cantor em serenata, reclama da janela a sua amante...”. Pois é, como dizia Ataulfo Alves – “falaram tanto que a morena foi embora...”, e foram todos. Restam casas comercias na agonia do materialismo voraz, do eterno enriquecer e até o abrigo de muitos encontros transformaram em loja de confecções. Não mais o pão com manteiga, o cafezinho quente, o conhaque e o bom churrasco servido para os homens da noite e para os viandantes de plagas distantes que passavam cruzando norte/sul e vice versa. As famílias hoje se abrigam em Condomínios protegidos por guaritas e seguranças, fugindo dos marginais gerados na “barriga da miséria” (Chico Buarque). Não mais as matinês do Cinema Íris de Belarmino com sua lanterna a retirar os “moleques” do ressinto, das segundas-feiras das fitas de Caubói, de Billy Elliot, Zorro, Roy Rogers, Cavaleiro Negro, Flash Gordon no Planeta Ming, O Gordo e o Magro, Três Patetas, das cortinas abrindo ao som de “Oh abre a cortina do passado, tira a mãe preta do cerrado, bota o rei congo no congado, Brasil! Brasil!”. Penso minha Princesa, que o progresso é a contramão do humanismo e o materialismo é a estrada por onde vão par e passo a fartura e a fome, caminhando juntos para o nada.

 

Feira, 11.06.2009. 

 

 

                        MILTON DE BRITTO

ADVOGADO, ESCRITOR, POETA, FILOSOFO,

           MEMBRO DA AFL E DO IHGFS.

 

PRAÇA FRÓES DA MOTA

 

(DA SÉRIE FILHOS DA PRINCESA).

 

 Década de 50.

 

Era uma praça linda, toda arborizada, com bancos espalhados em todos os seus espaços. Em sua volta inúmeras palmeiras imperiais, um Coreto ao centro recebia nos finais de semana e nos períodos festivos as filarmônicas Vinte e Cinco de Março, Euterpe e Vitória, que executavam Dobrados, Marchas e outras músicas do repertório popular de bom gosto. As famílias se acomodavam em volta, confraternizando-se, vivenciando amizades sinceras no ecletismo de suas formações intelectuais. Naquele logradouro, residiam nobres e plebeus, mas todos se respeitavam. Na esquina da praça, confluência do beco de saída da Rua de Aurora, morava Eurico, estudante comportado de grande habilidade com a bicicleta Raling fazendo malabarismo e equilíbrio a ponto de ficar parado por alguns minutos com a admiração dos amigos, sendo premiado com medalha em concurso daquela modalidade. Eme Portugal, um dos filhos da Princesa, era um dos residentes, tendo se destacado como Colunista Social, promotor das mais belas festas sociais, a exemplo do “Broto do Ano”. A família Martins (Afonso) gerou dois dos melhores jogadores de futebol do Estado e do Brasil – Adilson e Val. Joel Magno enveredou-se pelo caminho da comunicação, dedicando-se ao Rádio. Flori era bancário, Dr. Salustio médico e Luis Carlos filho do dono da Pensão que tinha como empregado o conhecido João Burguês, canarista militante, criador de canário de briga e que constantemente saía vencedor nas rinhas. Na esquina descida para a Rua do Nagé numa casa ampla morava Abelardo próspero proprietário da Padaria Duas Américas na Rua Tertuliano Carneiro (conhecida Rua Direita) com os destacados filhos Zé Pão e Toinho, ambos da área artística, que tinha como vizinhos Clemilton e mais ao lado a família Mascarenhas da Padaria da Fé, do pão quentinho, da queijada e do bolachão fofo. Esquina com a Rua São José um Prédio com um andar, funcionando na parte de baixo o fabrico de vinhos e licores de Dande e na parte de cima a Pensão que abrigava Edna a musa de muitas inspirações da rapaziada da Praça e de cantigas entoadas pelo escriba, retiradas do repertório de Dick Farney – “Não pensei que seus olhos fossem tão traidores, não pensei que seus olhos me trouxessem dissabores; não pensei que seus olhos transformassem meu viver; olhos negros cruéis tentadores, de mil amores que fazem sofrer...”. Vivenciando esse tempo, lá se encontrava na esquina com a Rua Tertuliano Carneiro a Rádio Sociedade, primeira Emissora da Princesa de propriedade de Pedro Matos, com seus programas de calouros e de astros, com auditório repleto, por onde passaram Dudinha, Chico Baiano, Toninho e Maninho ao violão, o velho Dôca e Geraldo Borges, (locutores e cantores). Por lá passei, cantei e fui para o Rio de Janeiro gravar na RCA VICTOR. Foram muitos encontros e poucos desencontros na Praça, que inspiraria o poeta a dizer: “Pelos teus caminhos brinquei, vadiei, amei e fui moleque; pelos teus jardins me escondi em jogos de “Chicotinho Queimado”, “Boca de Forno”, joguei confetes e lança-perfumes nas vestes e nos corpos de lindas donzelas; comprei alferes, taboca e doce de banana (mariola); fiz da minha vida uma festa que o tempo levou sem piedade; versifiquei até que te vi ausente de meus sonhos, desfeita e desfigurada, sem a possibilidade do encontro”.

 

 Feia de Santana, 05 de maio de 2009.

 

                    MILTON PEREIRA DE BRITTO

Advogado, Filósofo, Escritor, Poeta, Compositor, Violonista, membro da AFL, ACAFS, ALJFS E DO IHGFS.

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

 

                  MARIA

 

 Minh’alma é rosa que geada esfria...

Dá-lhe em teus seios um asilo brando...

Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!...

 


(Castro Alves)

 

Maria

frô brejêra

frô sôdade

frô Maria.

  

Maria

se eu te pego

eu me dano todo...

eu nem sei Maria 

que diabo é que eu fazia!?


 Eu te beijava!

eu te abraçava!

eu te mordia!...

eu te cheirava!

eu te amassava!

eu te sentia!...

 

No fim, eu te tomava,

eu te bebia,

pra que tu fosse minha ...

ó frô das frores bela ...

a frô que é tu Maria.

 

                                         Rio de Janeiro.  11.11.64

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022



 

 O TEMPO. 

O tempo é cruel, 

Fatídico. 

Iconoclasta 

Quebrantou minhas ilusões 

E destruiu todos os meus ídolos 

Da juventude. 


O tempo é veloz, 

Tem pressa, 

Não para. 

Segue sem rumo, 

Sem destino, 

Não vai a lugar nenhum, 

Mesmo que seja conhecido. 

O tempo é o limite de todas as coisas. 

Generoso - permite a todos suas andanças. 

Fúnebre – conduze-nos ao sepulcro, sem lágrimas. 

O tempo é o senhor do mundo. 

Assiste a tudo 

E é silente. 

Ele não passa, 

Passamos nós. 


Da Mesopotâmia 

Da Assíria 

Do Egito, 

Da Grécia, 

De Roma, 

Ao Brasil varonil 

De tantas misérias e desencontros, 

Passamos nós 

Com um só destino – a morte! 

O tempo é o desafio de todas as ciências. 

Só ele conhece o tempo que o tempo tem, 

O tempo que o tempo faz, 

De onde ele vem 

E para onde ele vai. 


 Feira, 07.06.2007.

 VIDA VIVIDA 


Vida Vivida 

Renhida Sofrida 

De alegrias 

E tristezas. 

Vida Unida 

Medida 

De acertos 

E desacertos 

De caminhos 

E descaminhos. 

Vida Nascida 

Lutada 

Enlutada . 

Vida corrida. 

Que importa 

Tê -la mantida 

Nos entremeios 

Da minha ignorância 

Se ao s aber - t e Plena 

Não te compreendi . 

Vida Vencida 

Renhida 

Sofrida 

Maculada 

E fingida 

De muitas alegrias 

E tristezas. 

Vida!... 


Feira de Santana, 24.03.2007.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

 

CAUSA-ME ESPÉCIE E INDIGNAÇÃO

 

Causa-me espécie e indignação, ter estudado tanto a ciência jurídica e ver os meus pares praticando a antijuridicidade, a interpretação da conveniência, a aplicação de normas, segundo os interesses econômicos e financeiros de cada um; Ver mestres se degradando em atos escusos pelos honorários vis da indignidade, porque a ética não se aplica aos que se beneficiam da própria torpeza; Causa-me indignação ter estudado tanto a filosofia dos homens que buscam tantas explicações para as suas razões e entendimentos da sua própria essência e, não admitindo o seu estado de ignorância, cultua o não saber, perdendo-se nas elucubrações do nada, associados aos que pregam a existência do não ser e a subordinação mitológica do medo; Causa-me intolerância a farsa, a traição, a falta de patriotismo, o desapego aos princípios morais, a ausência de razoabilidade para a compreensão, a negação das leis universais e dos homens, por ser mais fácil a acomodação dos covardes e a usurpação da consciência pelos manipuladores de plantão; Afronta a minha inteligência a união dos meus semelhantes para vilipendiar a consciência dos lacaios e tacanhos, retrógrados e imbecilizados, estimulando-se a inércia do saber, porque mais prospera a sociedade repleta de marionetes e zumbis, anestesiados pela lavagem cerebral, globalizada, para atender aos interesses imperialistas dos que nos colonizam; Causa-me espécie e indignação, a instalação da iniqüidade, da exploração do ser pelo ser, enaltecendo a ordem dos incultos e a irresponsabilidade dos que se dizem justos; Causa-me indignação a apologia dos indignos que fingem não entender as suas próprias indignidades através das quais se locupletam e se degeneram. Envergonha-me a prosperidade da ilicitude e o silêncio conivente dos poderosos; Enoja-me ter que pisar na lama podre das ruas e avenidas das mentiras estruturadas; E, causa-me tristeza não ter forças suficientes para mudar tudo, mentes, conceitos, filosofia e a essência humana em benefício do próprio ser evoluído ou em evolução.

Causa-me espécie e indignação.

 

Em um dia qualquer do ano de 2016.


Republicado em 17/08/2021.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

 SANTA TEREZA - RIO DE JANEIRO - DE MUITA SAUDADE




 MINHA ULTIMA RESIDENCIA NO RIO DE JANEIRO - SANTA TEREZA - 1971




sexta-feira, 21 de maio de 2021

 HÁ TANTA GENTE QUE PASSA

 Há tanta gente que passa 

Na rua do mundo 

No tempo da vida

 No encontro da morte 

No encontro da dor 

Em busca da sorte

 Em busca de deus

 Em busca do amor

 Em busca da sorte.

 Há gente que passa

 Na rua do mundo 

No tempo da vida 

No asfalto do ontem

 No sol do amanhã 

Na sombra do ausente 

Na noite presente 

Na praia do nada 

No mar da esperança 

No barco que fica 

Na onda do povo 

Na chama do ódio 

Na festa da fome 

Na veste da crença 

No luto do ser 

Na orgia da besta 

Na casa do néscio 

No chão que apodrece

 Na lua que dorme. 

Há gente que passa

Na rua do mundo 

No tempo da vida 

Na porta que fecha 

Na bomba que explode 

Na mente que sobe 

No corpo que desce

 No leito do beijo 

Na carne que vibra 

No colo do vento 

No seio da sede

Na bunda de alguém

 Na luz da saudade

 No sonho menino 

Na voz da mulher

Na vez que não vem 

No espaço do não 

Na boca que xinga 

No micro e no macro 

No cosmos do logos 

No carnaval da ilusão

 No querer momentâneo

 Na lógica e no convencionalismo 

No espaço e no tempo da relatividade 

No livro que não leu 

No pouco que sou eu 

Na dúvida que tenho 

Na rua do mundo 

No tempo da vida 

Na vida do nada.


 Rio de Janeiro, 20/10/68.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Vídeo - Milton - música - DÓ RÉ MI




 

 

                  AVENIDA SENHOR DOS PASSOS

 




Avenida das minhas serenatas, das minhas noites sonhadas, sondadas e caminhadas; das moças bonitas que namorei e não namorei; dos bate-papos gostosos de Isabel, de Elia, Maritinha e Candinha; dos assustados cantados, dançados e tocados por muitas madrugadas.

 Avenida percorrida sem cansaço e sem mentira, glorificada pelos amores vividos e jamais esquecidos.

 Avenida do Ginásio Santanópolis de tanto brilhantismo, dos cinemas Iris e Timbira, dos filmes de cowboy, das matinês e soirées; das apresentações artísticas de Chico Viola, da Aquarela do Brasil de Ari Barroso, abrindo as cortinas do passado...

Do glorioso cinemascope ao decadente filme pornô.

 Avenida de Helena Assis, mestra de muitos ensinamentos; de Vavá e de Vevé, de Emilson e de Dedé, de Chico Pinto que recebia Getúlio Vargas; de Raimundo Pinto, de Luiz Silvany, da Casa OK de Álvaro Barbosa, da Escola São João Evangelista, da datilografia aprendida para a burocracia mercantilista de um comércio que se organizava; da Professora Catuca e Hermengarda, de Armando Oliveira e de Braginha, da Pensão que me abrigou, do Carnaval que passou, das procissões e romarias, de Maria Lúcia e de Lúcia Maria, do Ferro de Engomar.

 Avenida do Colégio das Freiras Sacramentinas, de Hermínio Santos, da Casa da Torre, de Luis Alvim e de Faninho, do andar rebolante de Creuza, musa das minhas primeiras poesias.

 Avenida Senhor dos Passos que trilhei em passos firmes a caminho da Usina de Algodão, para os babas das tardes de janeiro e das noitadas de serenatas ao som de violões e canções inesquecíveis, da Voz do Violão, da Malandrinha e do Luar do Sertão, de poesias derramadas em noites de estrelas, testemunhas silenciosas que não se apagam.

 Avenida do Bar da esquina, confluência com a Carlos Gomes, onde cantei minhas últimas canções com um amigo castelhano que nunca mais encontrei, porque viajei e se passaram vinte anos e depois, mais trinta e cinco, e o tempo não retroage para o encontro dos que se perderam pelos caminhos e descaminhos.

 Avenida dos meus amores, que se foram sem despedidas e sem retornos.

 Em tua linha reta, Avenida, resta a amplitude de um comércio, responsável pela migração residencial que abrigou homens e mulheres que se apaixonaram, que formaram famílias e que foram expulsas pelo burburinho dos carros, carroças e caminhões. Pelo solo ocupado, por barracas desordenadas e milhares de passantes no indo e vindo sem rumo certo, em busca da chita e do equipamento eletrônico importado, que aliena e massifica a turba ignara, que não versifica, que não rima, e não canta as nossas musas, porque vão perdidos, entre tantos desencontrados.

          Avenida de Becos transversais que abrigaram famílias e bordéis, oficinas e bares, abrigos da boemia.

 Avenida da travessa do ABC, do Beco do França, do Beco do Ginásio, do Pilão Sem Tampa, do Maternal Bebê Conforto, da saudosa Pró Izabel, que confortavelmente abrigou o meu bebê, que se fez adulta e que se fez mulher bela e competente para a lida e para a vida.

 Avenida que se perdeu no progresso dos homens e na decadência urbanística e humanística, que o presente esqueceu e o futuro consagrou como o último reduto de famílias que se foram, mas, vive nas páginas da nossa História.

 

Feira de Santana, 17 de agosto de 2018.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

CARTA AO AMIGO AMARAL (CLUDELSON PESSOA DO AMARAL)

 

Feira de Santana, Bahia, Junho de 2013.

 

 Caro amigo Amaral,

 

Deixei o Rio em abril de 1969, notando uma coincidência inexplicável, porque cheguei nesta antiga Capital da República, exatamente em abril de 1961, cheio de sonhos, que não foram realizados por inteiro, porque foram interrompidos, por motivos alheios à minha vontade.

Não pude me despedir do amigo, e por isto, através desta carta, tento relatar e reviver fatos, que precisam ser ditos e partilhados, até como um desabafo, como diz o poeta – “falar para não enfartar”.

Você, talvez, deve se lembrar, que deixei a vida artística em 68, em conseqüência de atos cometidos por membros da ditadura que se iniciou em 1º de abril de 1964, quando, dentre tantas barbaridades cometidas, fecharam a Rádio Nacional, a Mayrink Veiga e a TV Continental, onde se davam as minhas apresentações, com muita freqüência e ensejou a minha gravação na RCA VICTOR. Para completar, fecharam a Boate Michel e o Restaurante Le Rond Point, onde eu cumpria contrato, bem remunerado. Daí, final de 67 para 68, busquei novas atividades, após retomar os estudos e nos encontramos em busca de emprego, nos escritórios de venda de Seguro de Saúde, do Hospital Silvestre. Trabalhamos juntos e após várias incursões, tivemos a idéia de vendermos a idéia para implantação do Seguro de Saúde a se estender pelo Brasil, começando pelo Rio. Conseguimos iniciar o projeto. Você comprou um Retroprojetor da 3M, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, fizemos uma demonstração do projeto, no IBIC, em Botafogo, Hospital Cardiológico de um amigo judeu – Dr. Edidio, que nos deu crédito e abrigo, para depois Castelo Branco baixar um Decreto suspendendo a implantação do Seguro de Saúde no país, atendendo aos interesses da Blue Cross e aí, ficamos na rua.

Montamos um Curso de Taquigrafia e Madureza, na Rua do Catete, e lecionávamos Francês e Inglês, na Paróquia da Glória, que foi fechada, se não me engano, em 68, pelo DOPS, que levou todos para o Campo do Botafogo, alegando que ali abrigava um bando de comunistas. Escapamos nós, que estávamos no cursinho e depois disso nos desarticulamos.

Segui para concluir meus estudos em Filosofia e prestar vestibular para Direito. Estudei latim, grego, espanhol, italiano e aprimorei o francês. Para tanto, sai do Rio e fui para a Bahia. Em 70, retornei para o Rio. Marivone, com quem eu havia convivido, tinha morrido. Fui morar em Santa Tereza, após um casamento desastroso, que jamais deveria ter acontecido. Em 73, após vários empreendimentos frustrados na Cidade Maravilhosa, segui para Belo Horizonte, Minas Gerais. Aprovado duplamente em vestibular para Direito, cursei inicialmente na UCMG, depois FADOM, UCMG, UNB – Brasília, UCSAL, FESPI, e, em 1980 conclui, por coincidência em abril. Parece que tudo acontece em abril.

De retorno a Bahia, fui nomeado Procurador do Município de Feira de Santana, exercendo, também, a advocacia, com a qual sobrevivo até hoje.

Escritor, poeta, tenho vários livros publicados. A música, por ser um dom, do qual não pretendo me divorciar, amadoristicamente, todos os anos, gravo um CD.

Do amigo tenho boas lembranças, incluindo a minha admiração pela sua inteligência privilegiada.

Lembro das nossas idas para comer um bom pastel de queijo com caldo de cana, na Rua Senador Dantas e das nossas boas conversas.

Lembro também - das poesias que eu escrevia, rodava no mimeógrafo da Paróquia e distribuía no Largo do Machado. Você lembra?!

Aproveito para manda-lhe um abraço, desejando-lhe muita paz e felicidade.

 Att.

 Milton Britto

 PS.: Esta carta faz parte das páginas do meu Livro “CARTAS NÃO REMETIDAS”.

 

  


 


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A FEIRA QUE EU VIVI

  

        1945! Um ano atípico. Final da 2ª Guerra Mundial. A Alemanha, a grande potência bélica do mundo, finalmente sucumbira diante da união de tantas Nações que se propunham um mundo livre, sem a ditadura do Nazismo.

    Eu morava em um casarão com primeiro andar, localizado na Rua Direita, na Cidade de Feira de Santana, Bahia, cujo imóvel tinha uma dimensão territorial, que ia até a Rua de Aurora. Um quintal todo arborizado, e, ainda me lembro, na porta dos fundos pude avistar um Zepelim, (um dirigível de fabricação Alemã) que nunca obtive resposta para a presença daquela espaçonave, naquele momento, naquele lugar. 

    A Rua Direita era uma via pública pacata, praticamente sem veículos automotores.

    Moravam naquela artéria, famílias tradicionais, como os Cordeiros, Carneiros, Carvalhos, Martins, prósperos comerciantes e fazendeiros. Todos se conheciam e tinham algum vínculo de amizade.

    Eu tinha apenas cinco anos de idade, pai, mãe e dois irmãos.

    Lembro que ao final da guerra, ainda desfilavam soldados, do exército pela Rua Direita, em direção a Praça da Matriz, onde ficavam seus alojamentos (local hoje ocupado pelo chamado “Feiraguai”).

    Ainda em 1945, minha mãe faleceu de “Doença de Chagas”.

    Em menos de seis meses, meu pai contraiu novas núpcias e nos mudamos para a Rua Santos D’umont, próximo da Rua São José.

    Nas proximidades, havia o Campo do Gado, Matadouro, Feira de gado e outros animais, um comércio próspero.

    A Praça Froes da Mota era um lugar aprazível, com Coreto, onde desfilavam Filarmônicas e Retretas, existindo a Mansão Froes da Mota, havendo no entorno residências de médicos, dentistas, fazendeiros, políticos, Pensões, Emissora de Rádio ( Rádio Sociedade de Feira) de Propriedade de Pedro Matos.

    Ali vivi, até os 12 anos de idade, cercado de amigos e parentes, como se fosse uma verdadeira irmandade. Lembro de Juarez, Eurico,Edgard, Val, Adilson, Zé Pão, Toninho, todos com a minha faixa etária, de muitos encontros e brinacadeiras.

    Guardo na lembrança os tempos de estudo na Escola Anexa, que ficava no fundo da Escola Normal (atual CUCA), onde fiquei até 1952 quando fui estudar em Salvador, no Colégio Ipiranga, (antiga residência de Castro Alves).

    Tive uma infância e uma adolescência, relativamente, normal, jogando futebol, empinando arraia, jogando bola de gude, tomando banho nos riachos e represas, indo ao Rio de Jacuipe.

    Predominava a religião católica e por isso freqüentávamos missas, novenas, batizados, crismas, casamentos, festas religiosas, quermesses, filarmônicas e retretas nos Coretos da Praça da Matriz, por onde passaram as nossas meninices, confetes, serpentinas, amizades e amores.

    Como diz o poeta – “Eu era feliz e não sabia”.

 

Feira de Santana, 09/11/2020.


domingo, 4 de outubro de 2020

 

                                                              MARGOT

 

Nascida no Bairro de Cascadura, subúrbio da Central do Brasil, Zona Norte, da cidade do Rio de Janeiro, cresceu e viveu até os l7 anos, no ambiente familiar, com princípios morais rígidos, freqüentando a escola pública, por pertencer a uma família de classe média baixa, sob a influência da religião católica, indo às missas aos domingos, onde foi batizada e crismada.

Concluindo o segundo grau do ensino fundamental (à época – curso primário, ginasial e científico), aos 18 anos Margot iniciou nos finais de semana, a freqüência nas praias de Copacabana, em companhia de algumas amigas.

Década de 40/50 (1940/1950), Copacabana era a Princesinha do Mar, cantada em verso e prosa, por Antonio Maria, Braguinha, Luis Bonfá, deslumbre das vedetes e da vida artística da Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro.

Todos sonhavam em conhecer e vivenciar Copacabana, com suas Boates, Bares, Restaurantes, Teatros, Casas de Show de todo tipo, incluindo Cassinos, sendo os mais famosos o Cassino da Urca e o de Copacabana.

Nos primeiros fins de semana, Margot já se enturmou com alguns moradores do bairro boêmio, iniciando encontros amorosos.

De repente, nada mais que de repente, Margot se fez mulher, linda, em todos os sentidos, com um corpo escultural, pele macia, levemente bronzeada, cabelos levemente aloirados, olhos azuis, dentes brancos e bem tratados, passando a ser vista como possível modelo para os desfiles carnavalescos em carros alegóricos e na passarela do Teatro Municipal, do Hotel Glória, Clube Sírio Libanês, Hotel Quitandinha, não faltando quem a incentivasse, logo surgindo interessados e patrocinadores.

Com 18 anos, (1940), após freqüentar a Zona Sul, comunicou aos familiares a sua decisão definitiva, de ir morar em Copacabana, argumentando que para tanto havia conseguido um emprego como modelo em loja de confecção de “alta costura”.

Mesmo contrariados, os pais perceberam que não conseguiriam demovê-la da decisão, desejando-lhe felicidade no seu intento.

Alguns amigos conseguiram-lhe uma escola de modelos, a exemplo da famosa “Socila” onde aprendeu a desfilar.

Chegando o período carnavalesco, Margot, já bem entrosada, consegue um patrocínio para o primeiro desfile no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Vestiram-na de Rainha, com vestes deslumbrantes, conseguindo-lhe o segundo lugar na premiação, sendo manchete em jornais e revistas, emissoras de Rádio, destacando-se na capa do principal semanário - Revista dos Artistas.

Admirada por muitos, desejada e cortejada, logo apareceram os barões endinheirados, empresários, deputados, senadores, ministros, jornalistas, artistas, propondo-lhes encontros, compromissos escusos, concubinatos, oferecendo-lhe jóias, carros, apartamentos, mas, a esta altura dos acontecimentos, Margot sabia o que queria e isto implicava em uma boa casa confortável, sem compromisso firme e exclusivo.

Com um Senador da República conseguiu uma bela Mansão na Avenida Atlântica, principal artéria pública de Copacabana, de frente para o mar.

De caso amoroso com o idoso parlamentar, passou a gozar de uma situação financeira confortável, seguindo a sua carreira de modelo, freqüentando as casas noturnas, ora com o Senador, ora com outros admiradores, em segredo, para não contrariar aquele que era o principal patrocinador.

Despertada para o sexo, tornou-se uma mulher fogosa, cheia de desejos, cujas satisfações seriam saciadas por jovens rapazes bonitos e saudáveis.

Passaram-se vinte anos. Noites perdidas, cigarro, bebida alcoólica e outras drogas consumidas, foram tirando a beleza de Margot.

O tempo não pára, é cruel e o físico humano decai, a beleza se esvai, se dilui, os patrocinadores do belo desaparecem e a sobrevivência no padrão de alto luxo é difícil.

As beldades vão se sucedendo, surgem novos padrões de beleza, a situação financeira é instável, a política muda, o Senador não se reelege, o Ministro se aposenta, a velhice acomoda, invalida a atividade sexual, a ciranda do poder é inevitável, é fugaz e vulgar, o tempo não perdoa.

A vida é como o elevador – sobe e desce e nem sempre os passageiros são os mesmos.           

Os múltiplos desfiles premiados de Margot deram-lhe fama, amantes, dinheiro, conforto, viagens, jóias, carros, tudo que jamais tenha imaginado uma garota de subúrbio da Capital do País, denominada – Cidade Maravilhosa, também conhecida como berço de sonhos e desilusões, na versão do poeta.

Os recursos financeiros de Margot iam se consumindo a partir do momento em que se via sem o patrocínio do Senador (já aposentado e sem a libido), sem os mesmos atrativos de ontem, a outrora suburbana, entra em decadência e começa a dilui o que ganhou, tendo que sustentar cafetãs, tendo que vender a Mansão, o carro, as jóias e até as suas fantasias.

Década de 60, de Bar em Bar, faz sua ronda noturna aquela que foi uma das mais lindas vedetes de Copacabana, uma das certinhas do Lalau (Stanislau Ponte Preta), que desfilou nas passarelas, do Teatro Municipal, Hotel Quitandinha, Hotel Glória, bebendo agora o Vermute, o Martine, e o raro uísque que lhe paga algum amigo do passado, até retornar ao seu kitinet no Edifício Ritz, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, reduto dos que sonharam e adormeceram em suas próprias frustrações, nos versos de Haroldo Barbosa, na voz de Nora Ney:

Bar da Noite

Garçom apague esta luz

Que eu quero ficar sozinha

Garçom me deixe comigo

Que a mágoa que eu tenho é minha

Quantos estão pelas mesas

Bebendo tristezas

Querendo ocultar

O que se afoga no copo

Renasce na alma

Desponta no olhar

 

Garçom, se o telefone bater

E se for pra mim

Garçom repita pra ele

Que eu sou mais feliz assim

 

Você sabe bem que é mentira

Mentira noturna de bar

Bar, tristonho sindicato

De sócios da mesma dor

Bar que é o refúgio barato

Dos fracassados do amor

 

Em 1990, com 68 anos de idade, sob a proteção de um admirador (amante de outrora), consegue a nossa vedete, abrigar-se na Casa dos Artistas, no distante bairro de Jacarepaguá, onde se encontram estrelas e astros que brilharam no universo de sonhos e fantasias.

 

Feira de Santana, 04/10/2020